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Um sorriso sempre aberto - 3° Parte!

'' O flautista das calças curtas. ''

        Irineu de Almeida fixou residência na '' Pensão Vianna '', orientando de perto os progressos do flautista. Animadìssimo com o talento do filho, o velho Vianna importou da Itàlia uma flauta espedial que custou a exorbitância de 600$000. Surgiu mais um mùsico na famìlia Vianna. Levado pelo irmão China, que tocava violão, Pixinguinha, com apenas catorze anos, foi contratado para o conjunto da concha, casa de chope da Lapa. '' Uma Copacabana em miniatura '', nas palavras de Pixinguinha.

O famoso Pixinguinha podia rer um chofer à sua disposição ( a foto tirada na cidade de Pôrto Alegre, em 1927 ). e teve tambèm seus automòveis: um Ford 31, um V-8 e um Plymouth. Hoje, sua condução è o ônibus Freguesia.


         O flautista de calças curtas, conhecido em quermesses e festas familiares, logo ganhou fama na vida noturna carioca. Propostas melhores cobriram os 6$000 diàrios que recebia no Concha e ele foi tocar no Ponto, no ABC, no Cassino. Tocava atè de madrugava, entusiasmando todos com o seu sôpro e imaginação. Nem por isso abandonava os hèabitos de soltar pipas e fumar escondidos cigarros fortes da època. '' Tragar um ' Fuzileiro Naval ' era um verdadeiro almoço '', relembra Pixinguinha.
        E là estava o rapazinho empinando seu papagaio quando apareceu um cidadão bem vestido e bem falante que lhe trazia um convite do violonista Artur Nascimento ( Tute ) para tocar com a orquestra do Maestro Paulino Sacramento no Teatro Rio Branco. Pixinguinha, meio assustado, foi saber do que se tratava.
        - Aqui està o flautista de que lhe falei - Disse Tute.
        - Isso, Flautista? - Espantou-se o diretor diante da figura comprida, desengonçado e de calças curtas que Tute lhe indicava.
        O rapazola apresentou-se ao maestro. No dia seguinte, o primeiro ensaio. Os bigodudos mùsicos preocupados com as pàginas da partitura e Pixinguinha tranquilo, soprando limpo e bonito a mùsica inteira, em perfeito entendimento com o resto da orquestra; '' Pegava tudo na antena '', esclarece o artista. E assim, sem olhar sequer para a partitura, Pixinguinha garantiu seu lugar que tocaria na peça Chegou Neves , com o melhor elenco da època.
        A noticia correu pela cidade: o Teatro Rio Branco havia um prodìgio de flautista. Formou-se na platèia uma espècie de torcida, principalmente nas matinês de domingo, quando Pixinguinha fazia solos sensacionais, acrescentando improvisos a cada nova apresentação.

A primitiva formação dos Oito Batutas: Pixinguinha, Raul Palmieri, Josè Alves, China, Jacò Palmieri, Luis de Oliveira, Donga, Nèlson Alves e o empresàrio Josè Segreto ( 24/09/20 ).

Por : Jùlio Medaglia

Um sorriso sempre aberto - 2° Parte!

'' Então a gente bebia o leite
e deixava o litro vazio... ''

     Com dezessete filhos, alèm de Pixinguinha, Alfredo da Rocha Vianna e sua esposa Raimunda levavam vida apertada. Os mais velhos começavam a trabahar desde cedo, ajudando o pai, funcionàrio do Departamento Geral dos Telègrafos, a pagar o estudo dos mais novos, que iam para as melhores escolas. Alfredo da Rocha Vianna Filho foi contemplado com o colègio mantido pelo Mosteiro de São Bento, por onde mais tarde passariam, entre outros, Heitor Vila-lôbos, Noel Rosa e Lamartine Babo. Não criou problemas para a rigìda disciplina da escola. Gostava de ajudar missa, pela natural tendência à religiosidade. Nunca foi aluno brilhante; estudava sò para agradar os pais.
     Na verdade, as primeiras letas ão atraìram tanto quanto as primeiras mùsicas ouvidas nas serenatas que o pai, flautista respeitado, promovia em casa. O menino ficava quieto num canto, escutando fascinado as polcas, valsas e lundus da moda. De repente alguèm se lembrava de que não era mais hora de criança estar acordada e o pequeno Alfredo era mandado para a cama. Contrariado, mas sem protestar, ele obedecia. e a Avò Edwiges, africana de nascimento, aprovava a conduta do neto com uma expressão carinhosa de seu dialeto natal : '' Pizindin '' ( Menino Bom ).
     A molecada da vizinhança concordava com a velha Edwiges : Alfredo era batuta. Não jogava bem futebol, mas era um bamba para empinar papagaios e jogar bola de gude. mas, em vez de chamà-lo '' Pizindin '', preferia o apelido de '' Bexiguinha '', referência às marcas qua a varìola deixara no rosto do companheiro. '' Pizindin ''  e Bexiguinha com o tempo se misturada, originando o '' Pixinguinha '', definitivamente consagrado em 1956, quando passou a designar uma rua do subùrbio carioca de Ramos, onde o mùsico morou durante 29 anos.
     Alfredo Vianna Filho não nasceu na Rua Pixinguinha e nem sabe dizer com certeza qual foi aquela em que nasceu : Julga ter sido na Alfredo Reis ou na Gomes Serpa, inclinando-se por esta ùltima. Quanto a local e data ele não tem  dùvidas: Foi na Piedade, a 23 de abril de 1898, dia de São Jorge, dia de Ogum.
     Pixinguinha cresceu tocando Flautinha de fôlha imitações daquilo que ouvia na serenata dos grandes. Apurando o ouvido, o dedilhado e a criatividade, quando não conseguia reproduzir um som inventada outro que tambèm soasse bonito. Aos doze anos estava tão familiarizado com a mùsica que logo esgotou os conhecimentos de teoria musical de Cesar Borges Leitão ( vizinha de rua e colega de trabalho do velho Vianna ), que se limitava às lições de um velho mètodo de Francisco Manuel Silva. 
     Nessa època jà tocava razoàvelmente cavaquinho e bombardino, mas sonhava com a requinta, espècie de clarineta de sons agudos. mas por medida de economia - havia duas flautas em casa - e tambèm porque poderia ensinar algo do que sabia ao filho, o velho Alfredo Vianna iniciou Pixinguinha no instrumento que mais tarde dominaria como mestre.
     As primeiras lições de flautas coincidiram com a mudança da famìlia para um casarão de outo quartos e quatro salas, na Rua Vista Alegre, logo apelidado de '' Pensão Vianna '', pous estava sempre cheia de gente, na maioria mùsicos convidados pelo velho Vianna.
     Um dos frequentadores mais assìduos da '' Pensão '' era o Professor Irineu de Almeida, que logo se ensudiasmou com os progressos de Pixinguinha na flauta, levando-o, em 1911, para o grupo carnavalesco Filhas da jardineira. O novato estreou em grande estilo, participando de uma batalha de confetes na Avenida Cenral ( Hoje Rio Branco ). no mesmo compôs sua primeira musica : o chorinho Lata de Leite, dedicado aos companheiros que estripulias, que custumavam roubar o leite da posta das casas. No ano seguinte voltou ao carnaval como diretor de harmonia do Rancho Paladinos Japonêses.

Por: Jùlio Medaglia

Um sorriso sempre aberto - 1° Parte!


       Cinco da manhã. Escuro ainda. Mas Alfredo da  Rocha Vianna Filho, o Pixinguinha, jà està acordado, com o radinho de pilha colado no ouvido. È homem de pouco sono. È homem de pouca pressa : Sò levanta là pelas sete e meia, depois de estudar os primeiros programas do dia.
       Assim que termina o cafè, acendo o cigarro - dos longos com filtro. O enfarte que sofreu em 1964 deixou-o precavido e desde então ele abandonou os caporais fortes que gostava de fumar. Precisa cuidar de seus 72 anos de vida bem vivida.
       As 8 horas jà està se preparando para sair, com medo de perder o ônibus Freguesia, que o levarà de sua casa - Rua Pedro Teles, Jacarepaguà, GB - À Wisqueria Gouveia, na travessa do Ouvidor, n°6, centro do Rio de Janeiro.
       - Tenho meus hàbitos de velho, como esse de vir ao Gouveia. Às vezes eu penso : amanha vou levantar mais tarde e vou para là mais tarde. Mas sabe como è um homem desta idade. Chegam as 8, eu estou me preparando para descer entre 10h30 e 11 horas jà estou no Gouveia vendo os amigos. A patroa està là cuidando da casa e eu não estou para ficar incomodando. Por isso eu não saio. Tambèm quando chega a hora de voltar, niguèm me prende. Não adianta me convidar para almoçar que eu não vou mesmo. Sò almoço - Ajantarado, pois não janto - la em casa.
       A ''assinatura do ponto'' no Gouveia è ritual de quase quinze anos. Ali Pixinguinha encontra amigos da velha guarda - João da Baiana, Carijò, Fabi, às vezes Lùcio Rangel -, que tambèm não perdem o expediente  de bom papo e bons tragos. Depois do enfarte, Pixinguinha teve que reduzir dràsticamente seu consumo de bebidas, aconselhado pelo mèdico a parar na terceira ou quarta dose de uìsque.
       - O enfarte, logo no princìpio da receita tira do sujeito todas as coisas boas da vida....
       Aniversario do Pixinguinha, os amigos - novos ou antigos - comparecem ao Gouveia para cumprimentà-lo. Là està, João da Baiana, impecàvelmente vestido com o lenço preto usado como gravata borboleta e o cravo vermelho na lapela Contrasta com a sobriedade de Pixinguinha : terno, gravata, chapèu panamà, sapatos engraxados, meias claras e sorriso sempre aberto. Là està Ernesto dos Santos, o Donga, ùnico remanescente dos companheiros de Pixinguinha no conjunto  os Oito Batutas. João da baiana, Donga, Pixinguinha : o trio de compositores mais antigos da musica popular brasileira.
       Alto e corpulento, Pixinguinha gesticula muito enquanto fala, usando as mãos para limitar ou ampliar o espaço de suas palavras. E quando um repòrter insiste com questões objetivas e perguntas complicadas, ele olha para os velhos companheiros e responde com um sorriso feliz : 
        - Meu Filho, nòs somos um poema.


Avenida Central, um cinema, o sucesso de um flautista. 

Por :  Jùlio Medaglia