Não foi nada fàcio para o negro , não. Enfiado em porões imundos de cargueiros, atravessou mares e foi plantado em terras que, mesmo parecendo com a sua , pertencia a brancos de lìngua estranha. Sob chicote foi jogado na enxada e logo teve que aprender que não tinha alma, apenas uma raça - de mùsculos fortes e sem lìngua .
Suas cantorias, seus amores, sua vida. Nada disso existia. Negro não era de pensar e sentir. O branco sò esqueceu de uma coisa : a matreirice do negro. Matreiro ele dizia pro patrão que acreditava nos santos brancos, frios, de pedra. na senzala, sua morada, louvava os orixàs, pretos como eles, fortes, quentes, suados. E cantava , depois da roça, pra esquecer o branco, pra lembrar de suas terras. Esperto , aproveitou sua ginga de cintura, sua ligeireza de pernas para inventar uma luta disfarçada de dança. Quando o branco vinha de arma na mão, levava uma pernada no meio do pescoço. E feito uma galinha d'angola , estrebuchava.
O negro não venceu. Mas se poupou no que pôde. Das senzalas foi jogado para os barrancos dos morros. '' livre '' entoou sua cantoria là de cima e sua voz desceu as quebradas, chegou às vilas e entrou pelos ouvidos brancos, educados nas erudições europèias.
E como o paìs jà era negro, a musica ficou. Cantada nas rodas, na manha dos mestres , nos quadris das mulheres. Desceu rua , subiu rua e se espalhou com pomposo nome de PARTIDO ALTO. Um nome , aliàs, que não poderia ser diferente para uma gente costumada à majestade , dos seus reis nagôs.
Texto tirado de uma revista que se chama : PARTIDO ALTO!
De um amigo que se chama : Fernando Damaceno